e partilhas

7.2. NOVIDADES e partilhas

Publicamos nesta secção algumas pequenas histórias de vivências e reflexões pessoais, links para documentos ou outras publicações, na sequência do incêndio de 3 de agosto no estacionamento do Andanças 2016 e das iniciativas desta AJUDADA, que possam ser entendidas como interessantes para a partilha aqui pretendida. Se deseja partilhar uma história, texto, documento, foto ou vídeo, veja p.f. a nota de roda-pé no final desta página.

As histórias mais pessoais são apenas alguns testemunhos dos muitos que poderão ser contados e partilhados. Foram sendo recolhidos de um modo avulso e seleccionados na esperança de poderem contribuir para um reforço positivo das aprendizagens acerca da condição humana e dos desafios – individuais, colectivos, sociais e culturais –, da época que vivemos e deste tipo de eventos, que este incidente nos parece, também, convidar a fazermos. E para os quais desejamos que esta iniciativa da AJUDADA Andanças 2016 possa dar um contributo positivo.

Pretendemos por isso, também, que estas partilhas tenham a ver com ideais e valores humanos e as mudanças para um mundo melhor. Com aquilo que nos é comum e nos une a todos. Com as dimensões humanas reais, partilhadas, dos desafios destas experiências colectivas – de proporção e impacto dramáticos nas vidas das pessoas. Mas também da sua superação, e das aprendizagens, valorizações e tomadas de consciência do que é essencial, que este tipo de acontecimentos nos podem permitir, a todos.

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“Eram quase três da tarde,

tínhamos acabado de almoçar e enquanto eu e a Gena fomos buscar café as nossas miúdas e a sua amiga, o grupo das Iaras, já tinham ido para a barragem brincar.

Em modo passeio, caminhava pelo vale, encontrei um casal amigo com quem nos sentamos a conversar, e foi aí que tudo começou.

Vi um rasgo de fumo ao longe, fino mas persistente, só me lembro de dizer:

‘Gena, as crianças…’ – e corri colina acima, a ver que o fumo aumentava cada vez mais e que estava mesmo na barragem onde estavam as miúdas.

Barraram-me o caminho, ninguém podia passar, ninguém podia ir ver os carros diziam as pessoas da organização, mas eu não queria o carro, ‘eu quero ir buscar as miúdas’ dizia eu, ‘a minha filha…’ mas não fui compreendida e sem hesitar virei costas e tomei outro caminho.

O festival é num local muito bonito, as imediações do espaço são pequenas baias que fazem lindas praias fluviais que são separadas por encostas de umas para as outras, e foi por aí que eu fui. Desci até à praia mais próxima e nadei até à outra onde elas estavam e aí ninguém me iria barrar o caminho. Nadando e olhando, nadando e chamando, nadando e chegando e nada. Elas já não estavam lá.

As explosões continuavam e o rasgo de fumo tinha-se transformado num enorme cortina preta que tendia a dirigir-se na minha direção,… e agora? Vejo os colchões de água abandonados, ninguém dentro de água, chamo e não tenho resposta, recebo ORDENS de que tenho de sair dali imediatamente… e agora?

Respiro e rendo-me, agarro num colchão e atiro-me de novo à água, nado e chamo, nado e vou perguntando pelas Iaras. ‘Mas porque é que trouxe isto comigo? Só me atrapalha e não me deixa nadar…’ mas logo percebi pois pelo caminho recolhi no meu colchão uma mãe e uma filha que não estavam a conseguir sair do mesmo sítio, só por curiosidade era o aniversário da menina.

Chegamos, voltei ao ponto de partida da mesma forma como saí, sem saber delas, calcei-me, larguei o colchão e subo à procura de pessoas conhecidas.

Para quem não conhece, tenho de partilhar que este espaço é um microclima de amor e tranquilidade social, aqui só se partilha, abraça, convive, dança. Se estou de férias, as únicas férias que iria ter, não estaria de telefone… mas a Gena estava e agora teria de a encontrar.

Andei mais de 30 minutos sem avistar ninguém conhecido, estava tensa e começava a sentir-me preocupada. Pessoas conhecidas mas não tinham visto as miúdas, ok… continuo. Uma situação parecida a minha mas com um menino e ele não estava com amigos estava com uma senhora, ok… continuo. Passo à frente de todos na organizada fila e continuo. Avisto uma mão no ar e alguém diz ‘Pi’… é a Gena, que alegria indescritível, abraço de conforto onde oiço as palavras mágicas ‘elas estão bem’ e ficamos ali no abraço.

Mais tarde soube que as meninas foram recolhidas por uma senhora e levadas por um amigo na sua autocaravana, foram levados para a freguesia mais próxima e lá ficaram até tudo terminar. Mais uma vez, muita gratidão a vós ❤

De modo geral tudo correu muito bem, os bombeiros foram incansáveis, a organização foi consciente e caridosa não deixou faltar nada a ninguém, as pessoas estavam crentes que nada de pior se iria passar e cantavam, embora mais para o fim o calor e o cansaço já fossem demasiado para aguentar.

Acabou, estamos na entrada, não me apetece falar com ninguém, sou abordada por uma psicóloga, digo-lhe que estou bem e só estou à espera que chegue a minha menina… esperei, vi-a a Gena e a Paula lá em cima, não me apetecia falar com ninguém… elas chegaram. Ufa, terminou.

Uma escolha abençoada ‘Após a tempestade vem a bonança’, pelo menos assim diz o ditado. No meu caso foi quase o que aconteceu pois o meu carro estava no parque 1 mas não ardeu por completo. Conta a história que o plano dos bombeiros para controlar a propagação do incendio foi abrir um espaço entre os carros estacionados e criar uma barreira humana com as mangueiras focadas nos carros que ficavam para atrás. O meu carro foi um dos três escolhidos para criar esse tal espaço vazio, o vidro da frente foi partido, puxaram o travão de mão e afastaram-no da fileira do estacionamento. Mas não afastaram o suficiente do elevado calor que estava e o meu Space Star ficou com a traseira toda derretida. E incapaz de circular na via pública. Segui para o Algarve de táxi e o meu carro de reboque. Trabalho fora da minha área de residência e esperando respostas de seguradoras e afins esperei cerca de um mês para tomar decisões e também para conseguir reunir condição de pagar o arranjo do veículo. Ainda não está terminado o arranjo e já gastei quase 1000€ em óticas e para-choques.”

Ana Pi (participante), 25 novembro 2016.

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“O dia 3 de Agosto de 2016 vai ficar marcado na minha vida,

não só por ter perdido o meu carro (do qual gostava muito e que se continuasse a comportar-se como se comportou até ao dia… seria certamente meu companheiro de aventura por mais no mínimo 5 anos ou mais… tranquilamente) e tudo o que estava dentro do carro, inclusive coisas de amigos… mas também por toda a vivência… por todo aquele desespero… 

No momento em que tudo começou, eu estava na barragem a tentar cumprir com o desafio que me tinha proposto viver no Andanças… muito longe de imaginar que o verdadeiro desafio estava prestes a começar… 

No entanto, eu quero relembrar esse dia, não pelo incêndio, desespero, medo e sei lá mais o quê que eu senti no momento, mas sim, por todo o carinho e amor que eu recebi de quem me telefonou… de quem me abraçou… de quem me disse frases, palavras lindas de coragem, de amizade… de quem esteve comigo nesse momento menos fácil… e também pela aprendizagem de como o ser humano tem a capacidade de dar a volta a situações complicadas e conseguir seguir em frente… conseguir rir pouco tempo depois de tudo… conseguir agradecer por estar bem… por terem sido ‘só’ carros…. e pouco depois de 24h após o incêndio, dezenas de pessoas, num dos palcos do festival cantava a musica ‘Eu Agradeço…’ e foi lindo… mágico… maravilhoso…

No entanto, naquele dia… eu não perdi só o carro e as coisas que estavam lá dentro… pois como os meus documentos de identificação arderam… também ardeu uma parte de mim… a minha liberdade, a minha independência… isto porque o carro para mim… não é só para andar… e muito mais do que isso… o meu carro representava a minha liberdade, autonomia (viver no Algarve sem carro não é de todo fácil, pois os transportes públicos não são de todo uma solução muito viável)  e uma parte da minha segurança… é um complemento de mim própria  e além disso… senti que ardeu com ele um projecto que estava previsto iniciar em Setembro e que foi adiado (No entanto, o universo quis que eu retomasse esse projecto… vamos ver se consigo avançar, mesmo com este grande percalço financeiro) … e foi tudo isso que me fez ter momentos mais complicados… mas o que me deu força para não alimentar a tristeza e outros sentimentos menos positivos é que eu acredito que tudo de menos bom que nos acontece… nos trás coisas magníficas… e desde o primeiro momento que eu comecei a receber isso… Claro que preferia não ter passado por aquele momento horrível… e nem os momentos seguintes de imensa burocracia e nem os actuais, que ainda não está nada resolvido, que continuo ainda sem carro… mas acredito que daqui a algum tempo, esta vivência, será mais uma prova superada, mais uma etapa concluída no meu crescimento interior… nos meus processos de mudança… 

E apesar de neste momento ainda precisar de ajuda para algumas coisas… no que eu puder ajudar, estarei disponível.”

Dora Alcaria (voluntária), 13 novembro 2016.

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“Gostaria de partilhar um momento que me marcou…


Depois do incêndio, e do regresso ao recinto do festival, voltei ao ‘lavatário’, que abandonei como todos os presentes, e deparei-me com um pequeno caos: loiça suja empilhada e espalhada por todo o lado, tabuleiros no chão e nas mesas, … (interessante notar que algumas pessoas antes de evacuar ainda tiveram o reflexo de levar o tabuleiro ao ‘lavatário’). Mas pouco tempo depois o local foi invadido por voluntários de vários serviços e alguns participantes que se ofereceram espontaneamente para ajudar e por ordem naquela confusão. Até a situação voltar à normalidade, continuamos a receber voluntários que se propunham para ajudar mas que tivemos de recusar por falta de espaço. Aproveito esta oportunidade para agradecer a todos. Foi um momento único… Parabéns a todos, nós!”

Belarmino Fernandes (voluntário coordenador), 22 setembro 2016.

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Dois carros e uma moto do Andanças com histórias lá dentro

Vera Moutinho (in Publico.pt), 17 setembro 2016.

O artigo escrito:

https://www.publico.pt/sociedade/noticia/dois-carros-e-uma-mota-do-andancas-com-historias-la-dentro-1744273

E o vídeo destas histórias:

https://www.publico.pt/multimedia/video/o-que-o-fogo-do-andancas-levou

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“Saudações luminosas a toda a estrutura directiva do Andanças!

Venho por este meio agradecer-vos por tantos anos de magnificas experiências e boas energias. Para mim, desde o 2º Andanças (no alto de uma serra perto de S.P. Sul…) que se tornou uma tradição marcar essa semana de férias no meu calendário. Espero que não se deixem ir abaixo com o infeliz episódio do incêndio, nem com algumas criticas que se seguiram. Tudo isso é normal, e não é importante. Importante é seguir em frente, e continuar um projecto que faz milhares de pessoas felizes todos os anos, e que anseiam já pelo próximo Andanças.

Estamos juntos, dançamos juntos!!!”

Pedro Lemos (voluntário), 7 setembro 2016.

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“O Desafio, tema deste Andanças não podia ser melhor.

Na vida temos de ter desafios e o Andanças deu conta do seu, mesmo sendo maior do que se estava à espera e com todo o drama de um incêndio. Só num Festival como este, quero dizer com este Espírito, se pôde continuar. Apesar de em anos anteriores ter si voluntária no Espaço Criança, este ano foi a primeira vez no Espaço Bebé e foi extremamente gratificante. Após o que aconteceu, nos que resolveram ficar, Voluntários e Visitantes estabeleceu-se uma ligação, um Espirito que há algum tempo não se sentia no Andanças. Foi lindo ver como os pais, alguns a primeira vez que tinham vindo ao Festival tanto Portugueses como estrangeiros se sentiram confiantes, agradecidos pela ligação voluntário – Criança, Voluntário – Família., num espaço Maravilhoso. Na noite do fogo tivemos treze crianças que às onze dormiam que nem anjos enquanto alguns dos pais tratavam do seu problema com as seguradoras. Viveram-se momentos únicos como é habitual no Andanças. Eu que sou uma pessoa que por pior que seja a situação tento ver o melhor dela e o que me tenta ensinar, e sendo o fogo um elemento da Natureza ‘que representa o instinto. Faz tudo retornar ao seu estado natural mais primitivo e básico. É altamente associado ao ímpeto, criatividade, impulso, orgulho, conquista, guerra, paixão.’ Creio que na vida nada é por acaso. 

Espero que toda a organização do Andanças tenha força, coragem para todos os desafios que tenham que passar.

Se precisarem da minha colaboração, estarei ao dispor. Um abraço.” 

Teresa Godinho (voluntária), 4 setembro 2016.

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“Felizmente

não necessitarei de socorrer-me desta onda de partilha e humanidade que se está a criar com a rede AJUDADA pois tenho uma grande e fantástica família que me dá todo o apoio. No entanto acredito que muitos dos lesados não tem o mesmo apoio que eu, pelo que será para mim muito gratificante poder ajudar no que me for possível.

Estive hesitante na altura se deveria responder ao email a oferecer a minha ajuda, pois como não estou atualmente nos grandes centros e também fiquei sem viatura para emprestar, não sei muito bem como posso ajudar, contudo, ponho-me ao dispor para aquilo que acharem que serei útil.

Este Andanças foi uma prova de fogo que afetou muita gente, mas a resposta dada pelos que permaneceram no festival após a tragédia foi a de quem sentia que vale muito mais a vida humana do que qualquer bem material, mesmo que este muita falta nos faça. Foi sempre este o meu pensamento enquanto procurava retirar com calma toda a gente do recinto, mesmo na quase certeza de que ficaria sem carro, e é este o pensamento que permanece em mim…

Depois da tragédia, existe sempre alguma coisa que podíamos ter feito de diferente, mas nada foi feito conscientemente e o que vimos no parque de estacionamento do Andanças é o que vemos por muitos lados. O azar bateu foi à porta deste festival que se mostrou de uma grandeza ainda maior do que aquela que já acreditava ter.

Por isso, força aí para toda a equipa da PX e coordenação do Andanças. Estes tempos não são fáceis também para todos vós, mas tudo se irá resolver. Depois de passar esta tempestade virão novos tempos, e um renovado Andanças que terá garra o suficiente para continuar o excelente trabalho que tem sido feito ao longo de tantos anos.”

Susana Serrazina (voluntária coordenadora), 17 Agosto 2016.

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NOTA: Se desejar pode também fazer-nos chegar via email (ajudada@andancas.net), a sua pequena história, testemunho ou reflexão, foto(s) ou vídeo, para partilha e eventual publicação. Não damos garantia de serem publicados. Pois reservamo-nos o direito de selecção e de publicação, ou não, por periodo indeterminado, de acordo com a intenção acima referida, com a finalidade e necessidades deste blog e com a nossa capacidade de resposta e entendimento, sempre subjectivo, do valor e interesse dos materiais enviados. Agradecemos que sejam textos/vídeos breves e, de preferência, com a autoria devidamente identificada – primeiro nome e apelido, estatuto/situação relativamente a este contexto/incidente (pessoa lesada, artista, voluntário, público, etc.). Nos casos de textos demasiado longos poderemos ter que fazer o corte/omissão de partes. Bem como podemos optar por não publicar os materiais enviados. Agradecemos a compreensão para qualquer destas situações.